Purismos

Novembro 13, 2009

Ter um espaço de escrita privado para consulta pública passa por uma opção pessoal – a de tornar público o que pensa em privado, com todas as consequências que isso acarreta.

Em momentos de extremos, há sempre o risco de se escrever aquela frase maldita que corrói até aos alicerces uma amizade de muitos anos, ou de se soltar aquele desabafo inspirado que fomenta o diálogo entre almas gémeas que não se teriam reconhecido de outra forma.

Um blogue é parte do seu autor. Mesmo que não contenha textos ou imagens, que não passe de um mero acumular de ligações a outros lugares na rede global, o conteúdo de um blogue reflecte escolhas, posições perante a vida, a sociedade, a sua própria individualidade. É algo que o autor oferece de si próprio à comunidade, mesmo que não tenha consciência disso.

Como em tudo o que existe, há vantagens e inconvenientes. Num mundo cada vez mais complexo e problemático, as motivações que levam as pessoas a passear-se por entre textos e imagens colocados ao seu dispor, são tantas quanto o número de pessoas que por estas páginas navegam. Tanto quanto a individualidade expressa por quem escreve, há que atender também à individualidade subjectiva de quem lê.

Acima de tudo, o espaço de cada blogue é usado com liberdade tanto para emitir quanto para receber informação. No entanto, caso se entenda que a liberdade convive lado a lado com a responsabilidade, e exista uma auto-censura quer no conjunto de temas abordados quanto na forma como os mesmos são traduzidos em palavras, é legítimo esperar que quem leia ou veja o que lá se escreve ou representa respeite essa auto-censura do autor, e se abstenha de comentários impróprios ou despropositados.

No entanto, pior que essas manifestações avulsas, existem os que subrepticiamente vão registando o que outros escrevem, com um assédio dissimulado e metódico digno de um espião que nunca conseguiu mais do que prescrutar janelas alheias, mas a tal se dedica como se fosse um Sorge ressuscitado, ou um Bond em carne inflado.

De entre de todas as actividades que podem tomar aspectos quezilentos, no entanto, a pior de todas parece-me ser a de quem começa por apreciar um lugar em particular, e depois espera que o autor que dele cuida seja sempre capaz de lhe corresponder a expectativas de continuidade que não são as mais adequadas a quem atravessa turbilhões próprios do que possa entender, pessoalmente, como próprios do processo criativo em que se sinta embrenhado.

A liberdade para escolher o que se escreve no seu próprio espaço, passa também por poder mudar de opiniões, de formatos, de assuntos, de estilos… ser coerente como as órbitas da Lua em volta de nós, ou inconstante como a força das vagas que assolam as falésias de acordo com o impulso que ventos longínquos lhes transmitem.

Gosto da liberdade no que escrevo, como escrevo, do que escrevo. Gosto da responsabilidade que pode parecer uma tentativa “burguesa” de ser “politicamente correcto”, mas me deixa de paz com a minha consciência fortemente moldada pela culpa judaico-cristã que me foi doutrinada na infância. Quanto à expressão da minha individualidade, não posso deixar de evitar que seja influenciada pelo mundo que me rodeia, incluindo o que acontece nestes espaços. Felizmente, tenho a liberdade de escolher as influências que quero, e aceitar as que aprecio – recusando as que nada me acrescentem ao que sou e penso.

Neste espaço, por exemplo, restrinjo-me a assuntos relativamente formais, sérios, mas que vou tentar rechear de irreverência por causa dos temas que nele vou abordar. Polémicos, capazes de inflamar discussões. Algo que não é fácil associar a mim por parte de quem me conheça, mas que também é parte de mim – não sou feito de matéria inerte, e o sangue que me corre nas veias, por vezes, também ferve.

Este será o espaço dedicado às emoções expressas de forma tendencialmente racional, mas não deixando de ser, por causa de isso, emocional.

…e, acima de tudo, escrito com liberdade e responsabilidade. Num estilo diferente do que costumo empregar, mas que também é meu. Porque não gosto de me sentir restringindo a uma única forma de estar neste mundo como se fôssemos obrigados a encarnar uma única personagem em toda a nossa vida como se de uma camisa de forças se tratasse.

Situacionismo

Novembro 6, 2009

Há algo sinistro na forma como toda uma nova indústria da Felicidade se insinua nas vidas de quem a pensa procurar. Momentos de mera humanidade, em que deixamos os sentimentos ceder perante as pressões que existem, são agora apelidados de fraqueza.

Um novo livro de Barbara Ehrenreich procura fazer um ponto de situação sobre o que acontece na sociedade americana em função desse optimismo impossível mas imposto por toda a gente.

De acordo com a autora, o dever que toda a gente tem de acreditar  que tudo é possível desde que se pense de forma positiva, constitui uma “moda” terrível destinada a permitir às pessoas demitir-se do dever de empatia para com o seu semelhante. As relações com os outros reduzem-se a um “sorri, que o Universo sorrirá para ti”, o que permite às pessoas manter a consciência tranquila mesmo que não dêem a quem dela necessita a ajuda que realmente precisa.

Para além dos potenciais danos nas relações com terceiros, o que podia ser uma atitude positiva pessoal que permitisse potenciar as acções que conduzissem a resultados positivos, transforma-se numa passividade quase suicida. “Se eu acreditar que vou ser feliz, serei feliz, e o Universo vai dar-me o que eu preciso para ser feliz”.

Aguardar-se que o Universo conjure no sentido de proporcionar felicidade a quem se queira sentir feliz, mas nada faça por isso, e acabe por achar que o facto de não alcançar a felicidade resulta da sua falta de merecimento pessoal pressentida pelas Forças do Destino, mais do que fomentar a inacção perante a adversidade, será que pode potenciar sentimentos de depressão?

Quando vamos a um médico, esperamos que ele nos medique, que ele nos trate, e não que ele nos diga: “Sorria, e o seu cancro entrará em remissão, e tudo ficará bem!”

Positive thinking é óptimo quando combinado com affirmative action, e não numa perspectiva de reality denial.

Barbara Ehrenreich, “Bright-Sided – How the Relentless Promotion of Positive Thinking has Undermined America” é, mais do que um manual para sobreviver nestes tempos de negação, um alerta para quem queira fazer algo da sua vida, e não apenas esperar que a sua vida aconteça de acordo com o que o Destino entenda que as pessoas mereçam ou não. O que, equivale a transportar para tempos laicos o já velhinho adágio “o nosso destino, a Deus pertence”, embora não devamos esquecer outro que não é tão comum nos países latinos e que o complementa: “Deus ajuda aqueles que se ajudam a si próprios”.

Informação sobre o livro e este assunto pode ser encontrada aqui.